TESOUREIRO DE COLLOR, MARTINEZ QUASE DÁ O GOLPE EM EDIR MACEDO
José Carlos Martinez -dono da Central Nacional de Televisão (CNT)- se aproxima de Edir Macedo com a proposta de tornar a emissora no Paraná afiliada da Record.
Em luxuosa festa em Curitiba, Martinez e Macedo se encontram e acordam o não-interesse do bispo/empresário na TV Corcovado (canal 9, RJ) que estava à venda pelo Grupo Silvio Santos, que fora obrigado a se desfazer da concessão por já possuir emissora na cidade. “Como tinha prioridade na compra, dei sinal verde para o Silvio negociar com o Martinez”, diz Macedo. “Eu não sabia das reais intenções dele”.
O negócio fora fechado por US$ 5 milhões. O dinheiro, especulou-se depois, hou
vera sido de um esquema de corrupção envolvendo Paulo César Farias, o PC, que também trabalhou como tesoureiro da campanha de Collor nas eleições de 1989. Mais tarde, José Carlos Martinez acabou processado por suposto omitir o empréstimo à Receita Federal.
No início de 1992, especulava-se em Brasília o suposto interesse de Fernando Collor de expandir seu poder na mídia, com a mão de Martinez (a família de Collor é proprietária das Organizações Arnon de Mello -grupo de jornais, emissoras e televisão- em Alagoas. A TV é afiliada da Rede Globo).
O maior dos passos de então presidente ao lado de Martinez seria a articulação de uma rede nacional para a CNT. Em março de 1992, a emissora abocanhou espaços na TV Gazeta de São Paulo, da Fundação Cásper Líbero. “Eu freqüentava Brasília semanalmente. O que se dizia, de forma aberta, era que Collor queria fazer uma grande rede própria para se manter no poder. E esse projeto ambicioso passava pela tomada da Record”, conta Demerval Gonçalves, ex-SBT e que, então funcionário de Macedo, articulava a assinatura da concessão em Brasília.
A “Folha de S. Paulo”, de 19/8/1997, noticiou uma suposta negociação de compra da Record pelo grupo de Martinez.
“Martinez desejava outros canais de televisão, aumentar a rede dele. Queria que a gente ajudasse isso a acontecer”, relembra o ex-ministro João Eduardo Cerdeira de Santana. “Ele tinha um projeto de uma rede nacional. A TV Record já estava vendida [a Edir Macedo] e ele [Martinez] não tinha dinheiro para comprar”.
Santana conta, em depoimento ao livro “O Bispo” (Ed. Larousse, 2007), que o ex-tesoureiro de Collor ficaria “muito contente se houvesse um problema com a concessão e ele fosse a solução do problema. A jogada dele era se apresentar ao bispo como saída para facilitar a concessão”.
Um dia, em reunião, Martinez diz a Macedo, na presença de Honorilton Gonçalves -diretor-artístico da Record- que não assinariam “de maneira nenhuma” a concessão. “Não há jeito. Eu posso ajudar o senhor”.
O bispo/empresário desafiou e ao mesmo tempo cortou relações: “Preste atenção: a Record só não vai ser minha se passarem por cima do cadáver de Jesus”.
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