“Quem era o negão que Maluf estava apoiando”?
Por Wagner Lemos

A história recente de negros na política nacional demonstra que ainda há um certo preconceito por parte de alguns eleitores para com candidatos afro-descendentes.
No entanto, essa tendência está sendo modificada nos últimos anos. Até a maior potência mundial, os Estados Unidos da América, elegeu o primeiro negro da história, Barack Obama. Essa reflexão tem como objetivo discutir não o governo Pitta e sim as dificuldades que o negro sofre para ser eleito.
Nos grandes estados do Brasil essa história vem desde o ano de 1985, segundo o professor adjunto da UEFS e pesquisador da UFBA e do IUPERJ, Cloves Luiz Pereira Oliveira. No Rio Grande do Sul, o “herdeiro político de Leonel Brizola”, Alceu Calhare (PDT-RS), um negro, se elegeu prefeito da capital gaúcha. No Espírito Santo, Albuino Azeredo (PDT-ES) foi eleito governador nos anos 90.
A campanha mais marcante de toda a história: um negro se elege para comandar a maior cidade do Brasil.
De acordo com o pesquisador, a eleição de Celso Pitta (PTB-SP) para prefeitura de São Paulo teve diversos fatores.
Cloves afirma que Pitta não trouxe para o debate problemas da desigualdade racial e da exclusão social no Brasil e que os insucessos de candidatos negros ao cargo do Legislativo no final dos anos 80 está ligado a questão da exclusão racial e social. 
Segundo dados do pesquisador, até o ano de 1996 São Paulo só tinha conhecimento de candidatos brancos. Concorrentes a cadeira de prefeito e de vereadores têm sido, segundo Cloves, ocupados tradicionalmente por homens brancos, ricos e filiados a partidos considerados conservadores.
A história política paulista modificou nos anos 90. Economista, político inexperiente, secretário de finanças do governo Maluf e negro, Celso Pitta era lançado para a disputa do cargo de prefeito da maior capital do país. Segundo o professor, o negro até então era representado como indivíduo “destituído de beleza, de inteligência e de capacidade de liderança para o exercício do poder”.
..”Podemos supor que a existência dos preconceitos contra os negros no Brasil, representando-os frequantemente como indivíduos destituídos de beleza, de inteligência e de capacidade de liderança e de qualidades para o exercício do poder (sobretudo quando comparado aos brancos), que a variável racial pode se constituir também num importante fator para definir os termos da participação dos negros enquanto candidatos em eleições”.
Cloves oliveira afirma também que os jornais, “Folha de São Paulo” e “Estadão”, influenciaram no processo político-eleitoral que culminou com a eleição de Celso Pitta. Para o pesquisador os jornais definiram e definem a agenda pollítica do país e a imagem do político na mídia.
Nas eleições de 1996, Cloves trouxe dados que mostrou o espaço que cada veículo deu aos candidatos. A “Folha” foi o jornal que mais espaço concedeu à cobertura política do ano em questão. Dados do “Datafolha”, informam que houve 208,5 páginas do dia 02 de agosto a 15 de novembro destinadas à cobertura para a prefeitura de São Paulo. Duas vezes mais que o concorrente “Estadão”.
O professor relata que eram 12 canditados, duas mulheres, três afro-descendentes e um total de vinte e sete partidos. Nesse ínterim, o então prefeito Paulo Maluf (PTB-SP), lança a candidatura do jovem Celso Pitta.
Pitta teve adversários de peso como o hoje governador de São Paulo e pré-candidato ao Palácio do Planalto, José Serra (PSDB-SP), a ex-prefeita (1989-1991) Luiza Erundina (PT-SP), o ex-prefeito de Osasco Francisco Rossi (PDT) e o médico José Pinotti (PMDB). Pitta e Maluf vieram com a coligação (“Não deixe São Paulo parar” – PFL(DEM) e PPB).
De acordo com Cloves, a candidata pelo Partido dos Trabalhadores, Erundina era tida como radical pelos eleitores, culminando com uma rejeição que chegou na casa de 42% das intenções de votos. Mesmo sem experiência em eleições, um candidato “cru”, Pitta. em apensa 15 dias de veiculação da propaganda das candidaturas, alcançou 28,6% de intenção de votos, uma marca invejável e surpreendente.
Erundina caiu no mesmo período de 33,7% para 24,4% e Rossi de 31,5% para 16,9%. Passaram para o segundo turno Pitta e Erundina.
“Quem era o negão que Maluff estava apoiando”?
Foi com essa frase, segundo o pesquisador, que os eleitores de São Paulo perguntavam ao ver um conjunto de Outdors espalhados pela cidade com a foto de Maluf e Pitta juntos.
Por ser negro, segundo Cloves, era improvável que Pitta ganhasse, mas no segundo turno, teve 62,3% dos votos.
Na disputa pelos espaços nos jornais Pitta também saiu como vencedor. 40,3% foram dados ao ex-secretário de finanças de Paulo Maluff. José Serra teve 26,2%. Erundina 22,2%, com segundo turno e tudo, Rossi 9,3% e outros candidatos, 2,2%.
O marqueteiro da campanha de Pitta era Duda Mendonça que resolveu enfatizar a imagem de Maluf para, de acordo com o pesquisador, endossar a candidatura para a prefeitura. Maluf e Duda diziam que a máquina partidária e a força política de um líder eram os principais itens para conseguir eleger alguém. 
“A força de um líder político, o apoio de uma máquina partidária e os recursos do marketing político se conseguirá eleger até um poste ou alguém que não sabe andar, falar ou pensar”.
Segundo Cloves Oliveira, Maluf tinha 50% de aprovação de seu governo e o problema da campanha foi a questão racial.